quarta-feira, 7 de agosto de 2013

No caminho de Machu Picchu : Bolívia


Esta viagem não foi uma novidade.
A primeira vez foi em 1989, com uma amiga e um amigo. Muitas aventuras juvenis, mochileiros no Trem da Morte
Depois, em 2003, Roger e eu. Muito mais conforto!
E agora viemos trazer o bebê que vai embora para conhecer um pouquinho mais da América Latina fora do eixo Brasil-Chile-Argentina.


A proposta era escrever esta postagem dia a dia. Foi uma ideia que tive quando escrevi aqui sobre Berlim e Munique. E assim, comecei esta experiência. E ela até que ia muito bem até o dia que, já em Cuzco, perdi todo o material que havia escrito nas notas do IPad. 
Que beleza, não? Imagina minha alegria... 
Sabe o que é mais engraçado? Ou melhor dizendo, mais triste? É que esta viagem estava cheia de problemas com os equipamentos... Acreditam que eu tinha saído de Brasília e largado para trás todo o material fotográfico? Por isso que as fotos que vocês verão aqui foram tiradas com uma Sony Cyber-shot
Mas, bora em frente! Eu que não ia estragar uma viagem por causa de "detalhes" como esses (mesmo?).
Aconteceu que, apesar de perder as anotações, descobri que escrever no esquema de diário não me agrada nem um pouco. Logo, proposta rejeitada. Percebi, porém, que escrever diariamente (ao invés de escrever o texto inteiro na volta da viagem) dá mais vida ao texto. Quando a sensação do lugar ainda está presente, as informações ficam mais reais. E detalhadas. É provável que vocês sintam a diferença entre os textos sobre os passeios antes e depois de Cuzco.

Nossa viagem começou por La Paz, depois de uma escala de um pernoite em São Paulo e de uma viagem com conexão em Santiago e escala em Iquique. Difícil, né? Nem parece que a Bolívia está logo aqui do ladinho...


La Paz é a capital nacional mais alta do mundo, com altitude variando entre 3100 e 4100 metros. Sendo assim, tem o aeroporto mais alto do mundo, o campo de golfe mais alto do mundo, a estação de esqui mais alta do mundo, e por aí vai. As atrações mesmo não são muitas.
A Plaza Murillo é uma graça, cercada pela Catedral de Nuestra Señora de La Paz, o Palácio de Governo e o Parlamento.




Próxima a ela, a bela igreja de São Francisco.


No Mercado das Bruxas, várias lojinhas com todo o material necessário para as oferendas à Pacha Mama (termo em quechua que pode ser traduzido como Mãe Terra), principal divindade da cultura andina. 


Isso significa desde miniaturas de carros e casas até fetos de lhama, passando por ossos, doces, ervas... Gostei do passeio. 


A cidade tem muitos museus: Costumbrista, de Instrumentos Musicais, Nacional de Arte, de Etnografia e Folclore... Uma boa parte deles fica localizada na fotogênica Calle Jaén.
O Museu do Litoral conta a história da invasão chilena que desencadeou a Guerra do Pacífico, na qual a Bolívia perdeu seu acesso ao mar.


A Casa de Murillo data do início do século XIX e lá viveu Pedro Murillo, líder da revolução da independência de 1809, que foi enforcado na praça que hoje leva seu nome. Belo prédio e acervo interessante!
No Museu dos Metais Preciosos, artefatos pré-hispânicos em ouro, prata e bronze e cerâmicas pertencentes à cultura Tiwanaco
Exposição sobre a fundação da cidade e seus costumes e tradições estão no Museu Costumbrista Juan de Vargas.


O passeio pelo Vale da Lua oferece uma linda paisagem, semelhante ao que se supõe seja a superfície lunar. São formações geológicas esculpidas pela ação dos ventos e das chuvas ao longo de milhares de anos.


Mas o melhor de La Paz, definitivamente, é a visita a Tiwanaco. Na antiga capital desta civilização, podemos visitar o templo Kalasasaya e a porta do sol, o templo semi-subterrâneo e a pirâmide de Akapana, que está sendo escavada. O Museu Lítico é fraquinho, mas tem um monolito enorme e muito bem conservado.


O dia 21 de junho marca o Ano-Novo Aimara, chamado WillkaKuti ou o Retorno do Sol. Segundo esse povo, o início do ano deve coincidir com o começo do inverno, quando a terra está descansando, preparando-se para um novo ciclo. Com a valorização dos costumes e tradições indígenas promovido no governo de Evo Morales, a festa tem crescido e ganhado destaque internacional. Nesta dia o sol demora mais a voltar para a terra e os povos andinos tem o costume de esperar o nascer do sol com solenes ritos ancestrais de agradecimentos à Pachamama, que tudo provém e produz.  E Tiwanaku é o lugar desta festa.
Os incas de Cuzco também marcavam essa data com a Festa do Sol, o Inti Raymi. Atualmente, a celebração peruana acontece em Machu Picchu.

Sucre é bem linda, com sua arquitetura colonial. Declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, é uma cidade limpa e calma.


A paisagem é incrível: o casario branco com balcões de madeira trabalhada e vasos floridos cercado pelas montanhas. Os casarões coloniais de fachada austera conservam pátios espaçosos, decorados por fontes e colunas.


Muitas igrejas coloniais também sobrevivem, incluindo a Catedral Metropolitana, do século 17, e as igrejas de La Recoleta, San Lazaro, La Merced, San Miguel e Santa Clara.


Para uma vista privilegiada da cidade que já foi uma das mais ricas do mundo, o melhor lugar é o pátio em frente a Igreja de La Recoleta.


Além dos museus de arte religiosa mantidos por algumas das igrejas, a cidade abriga outros locais de interesse histórico-cultural. O principal deles é a Casa de La Libertad. Inicialmente uma universidade, onde estudaram os líderes do movimento revolucionário de 1809 (leia mais aqui), foi palco da assinatura da ata de independência do país. Com a república instaurada, a cidade se tornou a capital da Bolívia e o lugar, sede do Poder Legislativo. Vale a pena visitar e conhecer um pouco da experiência boliviana na busca pela liberdade.


Fica na Plaza de Armas, onde está também o prédio do antigo Palácio do Governo. É que a sede dos poderes Executivo e Legislativo foi transferida para La Paz em 1899, depois de uma Guerra Civil, deixando em Sucre apenas a sede do Judiciário.


Para abandonar um pouco os heróis nacionais e se aproximar da gente do povo, visite o Mercado Central. Super movimentada, a área oferece de tudo um pouco: artesanato, comida, roupas e eletrônicos. O que mais curti, porém, foram as saias coloridas e as longas tranças das mulheres indígenas.
Um passeio bem diferente é o Parque Cretácico. Foi construído ao lada da montanha de Cal Orck'o, que reúne, impressas em sua superfície, o maior conjunto de pegadas de dinossauros do mundo. São mais de 5 mil pegadas de oito espécies de dinossauros, perfeitamente visíveis a olho nu.

Se tiver a sorte de estar pela região em um domingo,faça um passeio à vila de Tarabuco – uma das mais originais comunidades indígenas da Bolívia. A população preserva suas tradições e costumes ancestrais, inclusive o sistema de troca pré-hispânica. O maior mercado da região reúne os agricultores e artesãos dos arredores para comercialização de seus produtos. O artesanato (principalmente tecidos) produzido no local é belíssimo e atrai gente de todo o país. Uma deliciosa profusão de sabores, cores e perfumes!

No caminho de volta para Sucre, uma pausa para visitar a comunidade Jatun Yampara.
Trata-se de uma das mais antigas culturas vivas do continente e o projeto busca resgatar, preservar e proteger a identidade e os valores culturais e artísticos da cultura Yamparatradicional aldeia é conhecida pelos seus têxteis e cerâmicas artesanais.

Os moradores conduzem para uma visita às casas típicas e a pequenas exposições de roupas nativas, achados arqueológicos, tradições e ferramentas agrícolas e ervas medicinais locais. Esse contato permite entender um pouco o modo de vida e os costumes dessa comunidade andina e percorrer as oficinas de artesanato.  Eu fiquei super animada com o passeio, visitei o singelo e adorável santuário indígena e a escola e tomei chicha artesanal no bar nativo. 
Para quem estiver  com tempo e disposição, é possível hospedar-se por lá. São quartos bem arrumadinhos, com banheiro privativo e pensão completa.


Eu não acho Potosí uma cidade bonita, apesar de sua rica arquitetura colonial. A paisagem é árida e pedregosa, em contraste com o importante legado arquitetônico barroco que levou a Unesco a declará-la Patrimônio Mundial.


Com a descoberta de imensas jazidas de prata no Cerro Rico, Potosí se tornou uma das mais importantes e opulentas cidades do mundo, com população maior que a de Paris ou Nova Iorque. A exploração colonial foi intensa: a prata tornou-se um produto de destaque na economia da metrópole e os índios, mão de obra escrava abundante. A riqueza que movimentou a Revolução Comercial encheu as ruas estreitas de palacetes, praças, prédios históricos, mosteiros e igrejas com um rico acervo de arte sacra.


Embora a visita às minas seja a principal atração, eu não curto. Acho mais interessante o passeio à Casa de la Moneda: o prédio, o maquinário da época, a coleção de moedas, a réplica de um galeão espanhol que afundou repleto de ouro... Também é bacana passear pelas ruas Quijaro, Junin e Hoyos, onde estão concentrados os casarões coloniais, com tonalidades amarelas, avermelhadas e verdes obtidas de minerais do Cerro Rico. Potosí é uma cidade colorida, ao contrário de Sucre, que é conhecida como “Cidade Branca da América”. Diferentemente do Cerro Rico, a montanha mais próxima a Sucre era de cal.



Claro que a cidade também tem sua Praça de Armas, onde estão a Prefeitura e a Catedral. As principais igrejas coloniais de Potosí são San Lorenzo, San Francisco (vale pela vista da cidade e seus telhados coloniais), Torre de la Compañía e Jerusalen, além do Convento de Santa Teresa.


 
O lago Titicaca fica no alto da Cordilheira dos Andes e, embora faça frio, o sol é forte. Navegar por suas águas de um tom de azul impressionante é uma experiência que deslumbra.
O percurso de La Paz a Chua proporciona belas vistas das montanhas Huayna Potosi e Illampu.
O cruzeiro de catamarã parte de Chua em direção à Ilha do Sol e, de lá, segue para a cidade de Copacabana.
Ao redor do lago, os terraços ancestrais utilizados para a agricultura.
A embarcação, que oferece também cabines para pernoite, é bastante confortável e as refeições servidas são boas.



Isla del Sol é considerada o berço da civilização Inca, pois de lá partiram Manco Capac e Mama Ocllo para construir o Império Inca e fundar sua capital, a cidade de Cuzco. O passeio pela ilha passa pela escadaria e pela fonte do Inca, por um curral de lhamas e por um belo jardim cultivado com plantas ornamentais e medicinais, típicas da região. No complexo cultural Inti Watauma exposição sobre as expedições em barcos construídos com a palha local (totora) com objetivo de comprovar os movimentos migratórios entre a América do Sul e a Polinésia e um museu bem interessante sobre a cultura Tihauanaco e o surgimento do império Inca. Ao final, um pequeno ritual Kalawaya em homenagem a Pacha Mama complementa a experiência. É possível, ainda, dar uma volta em uma enorme balsa típica feita de totora e uma visita panorâmica ao palácio incaico de Pikokaina.


Copacabana é a última cidade boliviana antes da fronteira com o Peru e um importante centro de peregrinação. A grande (mas sem-graça) basílica abriga uma imagem de um metro de altura da virgem padroeira do país.
Na frente da catedral, um espetáculo curioso: a bênção dos carros. Veículos de todo tipo são enfeitados com guirlandas de flores e abençoados por um padre, enquanto os participantes comemoram com cerveja ou chicha. 
A subida até o Cerro Calvário, acompanhando as estações da via sacra, é um pouco sofrida. A vista panorâmica, porém, é magnífica.


A fronteira parece saída de um western. E deve ser atravessada a pé: você desce do veículo (seja ele qual for), pega o carimbo de saída da Bolívia, atravessa a fronteira, carimba a entrada na imigração peruana e volta para seu transporte. E o estranho: na imigração boliviana, você precisa apresentar uma cópia do documento de identidade. Eles carimbam e pronto. Você vai embora com sua cópia que não serve para nada... Ainda bem que há uma xerox disponível ao lado do posto, provavelmente de algum parente do agente de imigração. A informação foi de que era para facilitar a entrada no Peru, mas no lado peruano ninguém quis nem saber do maldito papel.


Culinária Boliviana:

Uma coisa que chama a atenção na culinária boliviana é a quantidade de tipos de batata e milho. São centenas! Segundo as explicações, isso se deve à diversidade de ecossistemas que mudam à medida que aumenta a altitude da Cordilheira dos Andes. Diga-se de passagem, tal variedade não é exclusiva da Bolívia. O mesmo se passa no Peru e em toda a região do altiplano andino.
A batata desidratada é muito difundida. Seu processamento é similar ao utilizado pelos incas antes da conquista espanhola e garante um prazo de validade de muitos anos. Recebe os nomes de chuño e tunta. Depois de reidratada, integra diversos pratos, como o chairo (sopa típica da região de La Paz, à base de cordeiro), o chicharrón (carnes de porco fritas) e a sajta (tradicional guisado de frango picante).
O frango, preferencialmente frito, é muito comum e, na região do lago Titicaca, a truta é abundante. E deliciosa! Também consome-se o cuy, espécie de porquinho da índia, a lhama e a alpaca, que é muito saborosa e, segundo consta, sem colesterol).
Um prato que me agradou bastante foi o pique a lo macho, com carne de vaca, salsichas, batatas fritas, tomate, cebola e locotos (tipo de pimentão muito picante, que eu tirava antes de começar a comer). O silpancho é um bife a milanesa servido com arroz, ovo frito e batatas com molho de cebola, tomate e locotos (o tal pimentão picante). As carnes normalmente são acompanhadas deste molho picante, chamado llajhua.
Nas principais refeições, é costume servir uma sopa como entrada. A sopa de quinoa (cereal andino com alto índice protéico) é uma das minhas preferidas. A casuela de maní  é feita de amendoim com verduras, carne de vaca, batata desidratada e grão-de-bico.
Os lanchinhos também são usuais e há muita comida vendida nas ruas. A salteña (empanada com massa levemente adocicada e recheada com carne bem temperada) é uma das delícias nativas e o choclo (milho branco e gigante) cozido é bem gostoso, apesar da aparência.


Restaurantes:

Nada muito especial para indicar não.
Em La Paz comemos ceviche e chicharrón mixto (seleção de frutos do mar empanados) no Cebichón. Fica na calle Linares, bem próximo à Praça Murillo e ao Mercado das Bruxas. O local é extremamente simples, bem esquisitinho até, mas a comida estava bem gostosa.
Também comemos bem no restaurante Rey Arturo, do Hotel El Rey Palace. Os típicos pique a lo macho e silpancho a cochabambina estavam ótimos.
Em Sucre, recomendo o Florín. Mistura de café, bar e restaurante, tem uma excelente tábua de queijos. O pique a lo macho estava muito bom e a brocheta de llama também agradou.
O Joy Ride também é bonitinho e com um saboroso pique a lo macho. A truta ao alho estava totalmente sem graça.


Veja mais fotos da Bolívia aqui.
Leia sobre a continuação da viagem no Peru aqui.